CONTRARREPORTAGEM EM FAVOR DA GRIPE NORMAL

GRIPE 'COMUM' MATOU MAIS DE 5 MIL ENTRE 2002 E 2004

Uma das principais regras do bom jornalismo – apesar de os iluminados do Supremo Tribunal Federal acreditarem que jornalista não precisa de regras nem de diploma – é mostrar todos os lados que envolvem um fato.

Por isso, é com o maior prazer que acolhemos a opinião do colega jornalista José Carlos Salvagni, que escarafunchou estatísticas do Datasus, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, e elaborou um verdadeiro dossiê, mostrando que o diabo já foi bem mais feio do se pinta, só que sem holofotes da mídia.
Mídia, aliás, que se recusou a publicar esse material que ele denomina de Uma contrarreportagem ‘em favor’ da gripe ‘normal’, essa vira-lata que, mesmo sem o prestígio científico da gripe do tamiflu, foi muito mais letal: causou 5.100 mortes no País entre 2002 e 2004. E ninguém notou...

Segue a argumentação de José Carlos. Por motivos técnicos não publicamos as os arquivos em PDF mencionados pelo jornalista em seu “contraponto” à nota que publicamos em 19/8, sobre a gripe suína. E, a propósito, se algum companheiro jornalista quiser o PDF, é só pedir que envio por e-mail.


Tenho um contraponto ao seu enfoque da gripe suína, lastreado nos dados do Datasus, do Ministério da Saúde, que, estranhamente, ninguém divulgou e quer divulgar, apesar de eu ter indicado o endereço, como fazer, gráficos etc. É o enfoque da manada: é preciso que um primeiro jornal saia na frente para todo mundo seguir atrás.

Você não deve saber: entre março de 2002 e dezembro de 2004 o Brasil passou por um surto de gripe muito mais letal que essa, com 5.100 mortos. Só no primeiro ano foram 1.807 mortos. Deu um repique no terceiro ano com 100 mortos a menos. No primeiro ano pegou bem no Sul e Sudeste, embora também no Nordeste. Nos outros dois anos, foi mais no Sul. Foram 5.100 mortos apenas os contabilizados pelo sistema hospitalar do SUS.

Não está claro quantos foram fora dele, talvez 10 ou 15%. Imagine se na época o governo e a imprensa saíssem por aí do jeito de agora dizendo: "Hoje morreram tantos!" Se essa descoberta me espantou (e me espanta o silêncio em torno dela – quem sabe, alguém tome vergonha na cara e dê alguma coisa nesse final de semana), fiquei ainda mais espantado com a descoberta pessoal de saber que a pneumonia (esse sim um problema gravíssimo) sofreu um repique a partir de 2003, até atingir o recorde histórico próximo a 45 mil mortos em 2007. Ou seja, fazendo as contas, 121 mortos por dia! Esses números não são muito diferentes hoje.

O Sudeste, região mais atingida, responde por 60% das mortes por pneumonia. E sabe qual a segunda região mais atingida? Não é o Sul, mas o Nordeste, com 16,5%! E sabe de mais uma? As mortes aumentam até 2007 na mesma proporção em que as internações diminuem. Você não acha que tem alguma coisa errada?

Estou mandando para você o arquivo que fiz em PDF dos dados que achei – que denominei de ‘contra-reportagem’, à guisa de contraponto – e o principal gráfico também à parte. A linha cor de rosa é a do surto registrado pelo sistema hospitalar do SUS, não incorporado ao que parece pelo outro banco de dados do Datasus, o Estatísticas Vitais, que deveria abranger tudo.

Estou pê da vida com esse alarmismo. Sim, morreram 300, ou quem sabe 400, desde abril, segundo o Ministério da Saúde. Choca-nos que morram e corramos o risco de morrer. Mas por que calar sobre 2002 a 2004? Falhou a Vigilância Sanitária, ou ela agiu de uma forma discreta, buscando agir sem alarmar? No PDF, estão também dados como faixas etárias e gênero. Se tiver dificuldade de montar as tabelas (levei mais de uma semana), posso lhe enviar as planilhas e o modo de chegar aos números.

O que pega é que a gripe (e um mundo de outras coisas) nunca mereceu, de fato, grande atenção. Agora houve um alerta do México, que a Organização Mundial da Saúde passou para o mundo. E deu nesse cagaço todo. A imprensa se esqueceu de uma prática histórica nossa que é a de não se contentar com versão oficial, mesmo em assuntos ultraespecíficos. E sei que você é dotado dessa mesma matéria-prima nossa, desse mesmo sentimento.

Cordialmente,
José Carlos Salvagni

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