O HAITI É AQUI (TAMBÉM)

A ESTA HORA EXATAMENTE
HÁ UMA CRIANÇA NA RUA...

Quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010, alguns minutos após as 13h. Ou seja, sol a pino, pois não fora o horário de verão, seria meio-dia.
O local: rua Major Quedinho, quase altura do viaduto sobre a avenida Nove de Julho, a poucos passos do Legislativo paulistano.
Ali, dois garotos - com certeza drogados - estão estirados na calçada, como se estivessem mortos, num ensaio - talvez - para um futuro não muito distante...
Quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010. Praticamente no mesmo local, nas mesmas condições dos meninos, uma garota se aconchega à mureta, usando uma sacola como travesseiro.
Em minha mente, além da indignação, vejo e ouço a voz marcante de Mercedes Sosa na "Canción para um niño de la calle": A esta hora exactamente, / Hay un niño em la calle.../ ¡Hay un niño en la calle!
Volto para o trabalho. Abro a internet e topo com um interessante artigo da psicóloga Luciana Leis, especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade. O título: E de repente, o mundo todo quer adotar as crianças haitianas, vítimas do terremoto...

A psicóloga começa seu artigo comentando a tragédia e a comoção que tomou conta do mundo diante de tanta desgraça, com muitas pessoas e entidades espalhadas pelo planeta se prontificando a amparar os órfãos, inclusive pela adoção.
Luciana destaca a seguir que os pedidos de adoção são também de brasileiros via embaixado do Haiti.
Fique agora com as conclusões do artigo:
"Porém, quando falamos em adotar uma criança, não estamos falando de um gesto de caridade, e, sim, da constituição de uma família, onde é primordial que essa criança possa ter, acima de tudo, “um lugar de filho”, junto aos pais. Devido ao grande volume de solicitações de adoção de crianças haitianas, penso que possa estar havendo uma confusão na cabeça destes 'candidatos a pais'.

ADOÇÃO NÃO É CARIDADE - "É preciso deixar claro que adoção não é um ato de caridade. Podemos ajudar o povo haitiano de diversas formas: enviando alimentos e dinheiro, prestando serviços voluntários... Não adotando. A adoção é algo muito mais sério e precisa ser bem trabalhada no psiquismo dos futuros pais.
"O próprio Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) fez um alerta que órfãos e crianças abandonadas no Haiti, após o terremoto devastador, devem ser adotados no exterior, apenas como último recurso. O objetivo deste comunicado é preservar a saúde mental destas crianças. É muito mais vantajoso para elas encontrar seus familiares (irmãos, tios, avós) do que saírem de seu país de origem para viverem junto a pessoas estranhas.
"E sem menosprezar o sofrimento haitiano, é bom lembrar também o fato de termos, em nosso País, um grande número de crianças negras pedindo um lar. E que, justamente pelo fato de serem negras, não conseguem ser adotadas, já que é sabido que a maioria dos casais em fila de adoção prefere crianças brancas.
"A impressão que nos dá é a de que por trás deste gesto, pode até mesmo existir um certo ganho de destaque social: “ Este é meu filho, adotei-o durante o terremoto que devastou o Haiti”... A pergunta que fica é se realmente lserá dado o posto de filho a esta criança.
"Precisamos ser cautelosos diante de dramas tão comoventes como este. Uma adoção nestes termos, só seria válida, se esse evento tivesse mobilizado, de fato, o real desejo de adotar uma criança. Não é preciso ir ao Haiti, nem a países africanos, como fazem as celebridades, para encontrar crianças em situação de desamparo emocional, que aguardam ansiosamente por pais que as amem."

HAITI EM NOSSAS CALÇADAS... - NP concorda e assina embaixo o artigo de Luciana. Não estamos aqui falando da ajuda humanitária dada pelo País ao Haiti. Mas, sim, de atitudes como essas de brasileiros se oferecendo para adotar crianças haitianas, quando nossas calçadas, ruas e viadutos estão repletos de moleques em condições semelhantes.
Como diz uma composição de Caetano e Gil feita no final do século 20: O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui.
Deixo a seguir os links dessa música e da canção interpretada por Mercedes Sosa. Ouça-as e reflita.
Deixo também os contatos de Luciana, caso você queira entrar em contato com ela.

Haiti
http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44730/

Canción para un niño de la Calle
http://letras.terra.com.br/calle-13/1564373/

Luciana
luciana_leis@hotmail.com
http://twitter.com/lucianaleis
http://lucianaleis.wordpress.com/

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