Comendo couve e arrotando caviar

Sorria: Constituição vai
garantir nossa felicidade

Pode parecer brincadeira, mas não é. Está pronta para ser votada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado a chamada PEC da Felicidade...
Para quem não sabe, PEC significa, ao pé da letra, Proposta de Emenda à Constituição; ou seja: se aprovada a proposição – de autoria do senador pelo Distrito Federal Cristovam Buarque – estará constitucionalmente assegurado a todos os brasileiros o direito de ser feliz...
A PEC, que poderá estar na mesa de discussão da Comissão logo após as eleições de 3 de outubro, ressalta que os direitos sociais citados no artigo da 6º da Constituição são essenciais à busca da felicidade.
Pela PEC, que já tem o voto favorável do deputado tucano amazonense Arthur Virgílio, o artigo 6º fica assim: "são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".
Como a maioria desses direitos são mal e porcamente atendidos é de se deduzir que a infelicidade continuará brotando feito tiririca... Tirica?
De qualquer forma, pelo menos na Constituição, o direito à felicidade estará assegurado. Ninguém merece...

PS: a foto que ilustra esse post é de Ubirajara Dettmar, sensível e premiadíssimo repórter-fotográfico. Conheci U.Dettmar – era assim que assinava seus trabalhos – quando trabalhei na Folha de S. Paulo. O fotografado é Boca de Anjo, um artista popular carioca, como Dettmar. Por onde andará U.Dettmar? Mas esse é assunto para um próximo post.

HISTÓRIAS DA TIA LIA (1)

Crediário

Quando o autor dessas maltraçadas chegou a São Paulo, em 1976, a loja de departamentos Mappin estava a pleno vapor. A matriz ficava na esquina da Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo, quase de cara para o Teatro Municipal.
Na época, para comprar presentes, mobiliar a casa, fazer o enxoval de casamento e outras gastanças, o sujeito ia ao Mappin ou então ia à Mesbla, que ficava ali por perto, na 24 de Maio.
Não importa em qual, o certo é que Lia Sampaio, artista da noite paulistana que até recentemente cantava e tocava no Bar do Alemão, na Avenida Sumaré, foi a uma das lojas para fazer um crediário.
Crediário no final do século passado, em tempos de inflação e economia instável, era um verdadeiro inquérito. Queria saber de tudo. O cliente tinha que mostrar até atestado de vacina. Comprovação de renda, então, era na base da carteira profissional e holerite.
Bom, mas a Lia, que a partir de hoje (outras histórias dela virão) vamos chamar de Tia Lia, queria fazer uma compra a crédito. Escolhido o produto, foi à seção do crediário. Quando chegou a hora de dizer a profissão, Tia Lia encheu-se de orgulho e bradou:
-  Musicista.
- Como? – indagou a mocinha do crediário.
- Mu-si-cis-ta – respondeu, Lia, separando as sílabas.
A jovem foi até o gerente, que olhou desconfiado de sua mesa. Depois de alguns cochichos, ela retornou e cheia de autoridade questionou:
- A senhora não tem outra profissão, não?
E Lia respondeu rápido:
- Puta.
A moça arregalou os olhos e correu de novo para o gerente. Novos cochichos, olhares desconfiados, e a mocinha voltou ao balcão:
-- Como era mesmo a profissão que a senhora disse antes?

Tia Lia e o criador deste blog numa noite de seresta em Santana do Parnaíba