HISTÓRIAS DA TIA LIA (1)

Crediário

Quando o autor dessas maltraçadas chegou a São Paulo, em 1976, a loja de departamentos Mappin estava a pleno vapor. A matriz ficava na esquina da Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo, quase de cara para o Teatro Municipal.
Na época, para comprar presentes, mobiliar a casa, fazer o enxoval de casamento e outras gastanças, o sujeito ia ao Mappin ou então ia à Mesbla, que ficava ali por perto, na 24 de Maio.
Não importa em qual, o certo é que Lia Sampaio, artista da noite paulistana que até recentemente cantava e tocava no Bar do Alemão, na Avenida Sumaré, foi a uma das lojas para fazer um crediário.
Crediário no final do século passado, em tempos de inflação e economia instável, era um verdadeiro inquérito. Queria saber de tudo. O cliente tinha que mostrar até atestado de vacina. Comprovação de renda, então, era na base da carteira profissional e holerite.
Bom, mas a Lia, que a partir de hoje (outras histórias dela virão) vamos chamar de Tia Lia, queria fazer uma compra a crédito. Escolhido o produto, foi à seção do crediário. Quando chegou a hora de dizer a profissão, Tia Lia encheu-se de orgulho e bradou:
-  Musicista.
- Como? – indagou a mocinha do crediário.
- Mu-si-cis-ta – respondeu, Lia, separando as sílabas.
A jovem foi até o gerente, que olhou desconfiado de sua mesa. Depois de alguns cochichos, ela retornou e cheia de autoridade questionou:
- A senhora não tem outra profissão, não?
E Lia respondeu rápido:
- Puta.
A moça arregalou os olhos e correu de novo para o gerente. Novos cochichos, olhares desconfiados, e a mocinha voltou ao balcão:
-- Como era mesmo a profissão que a senhora disse antes?

Tia Lia e o criador deste blog numa noite de seresta em Santana do Parnaíba

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