Paróquia põe comida na mesa de 1.200 famílias

Franciscanos lutam para resgatar
vidas mergulhadas na pobreza
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Criado em fevereiro de 1985, sob a orientação do frei Sebastião Benito Quáglio, o Grupo Franciscano, ligado à paróquia Santíssima Virgem, localizada no Jardim do Mar, em São Bernardo do Campo, tem sido a tábua de salvação para um grande número de famílias carentes da cidade e da região.
Frei Sebastião: alimento, amparo e orientação
Mensalmente, só na paróquia, as cestas básicas distribuídas a cada quinze dias consomem quatro toneladas de alimentos doados por empresas e pelos fiéis. Ao todo, porém, são cerca de 17 toneladas/mês, pois a paróquia garante cestas para muitas das 80 pastorais existentes em sua área de atuação.
“São 1.200 famílias devidamente cadastradas, que vêm de todos os cantos de São Bernardo, sem contar cidades vizinhas e bairros de São Paulo, como Ribeirão Pires, Americanópolis, Diadema, Pedreira, Itaquá, Cipó e até os índios guaranis das aldeias Krukutu, que ficam às margens da Represa Billings”, diz Aparecido Pereira de Souza, 57 anos, coordenador-geral do Grupo Franciscano, que por ter sido professor de capoeira quando era solteiro ganhou o apelido de “Bertão”.
Dr. Manuel: dor motiva 90% das consultas
Motorista e marceneiro, Bertão está no grupo há 17 anos e é ele quem vai buscar os recursos e as doações para as cestas básicas. Também é Bertão quem visita as casas das pessoas assistidas e, por conta disso, ele diz ter tido experiências muito tristes, como a da  mãe, moradora de uma favela, que, não tendo nada melhor a oferecer, usava capim gordura para matar a fome dos filhos.
Há seis anos, foi criado um grupo para oferecer café da manhã às pessoas que vão buscar as cestas na paróquia, aos sábados. “É que elas chegavam aqui sem nada no estômago e acabavam sofrendo desmaios, tonturas. Agora, depois que assistem à missa, podem comer pão com manteiga e café com leite”, explica Bertão.

Bertão: mãe dava capim gorrdura aos filhos
Problema maior é a dor – Além de alimentos, lembra Bertão, o Grupo Franciscano oferece roupas, agasalhos, calçados e remédios às pessoas que estão em estado de pobreza, procurando também atendê-las em outras situações aflitivas, oferecendo encaminhamento médico, jurídico e psiquiátrico.
O médico Manuel Pereira Martins, 63 anos, começou a fazer trabalho voluntário no Jardim das Orquídeas, onde ficou por 11 anos. Ele conta que entrou para o Grupo Franciscano porque possui uma abrangência maior. “Aqui vem gente de várias favelas e até de cidades como Diadema e Santo André. O leque é maior e não fica restrito ao bairro.”
Café reforçado antes da entrega das cestas
O atendimento, segundo Martins, é mais voltado à orientação do que assistência ambulatorial. “São consultas de rotina e casos que encaminhamos aos centros de saúde. Mas 90% da demanda estão relacionados à analgesia: dores articulares, estomacais e de cabeça. Por isso, sempre peço que as doações para nossa farmácia, sejam de analgésicos e anti-inflamatórios, que, claro,  não estejam com o lacre violado e prestes a vencer”, solicita o médico.

Voluntários são bem-vindos – Maria Aparecida dos Santos Principeza, a “Cida”, 35 anos de experiência como técnica de enfermagem, é a voluntária que cuida da farmácia, que tem até bolsas de colostomia e nefrostomia para oferecer.
Cida: farmácia e grupo para Mal de Alzheimer
“Como atuei por muito tempo na região do ABC, tive bastante contato com médicos, laboratórios e hospitais, recebo doações de diversos medicamentos e de amostras grátis. Fora isso há os familiares de doentes falecidos, que deixam remédios e também roupas que podem ser aproveitados”, explica Cida, que pertence à Pastoral da Saúde, que, entre outras ações, mantém uma equipe que faz arrecadação de enxoval para gestantes.
Outro trabalho importante desta pastoral, destaca Cida, é um grupo formado por dentistas, nutricionistas e médicos geriatras que fazem palestras para cuidadores de pessoas com Mal de Alzheimer. O grupo, por sinal, convida Cida, está precisando de voluntários.
O contador aposentado Dirceu Alves, que está no Grupo desde 2003, administra com a ajuda de um computador o sistema de cadastro dos beneficiados.
“Temos nomes, número de dependentes e informações importantes sobre quem recebe as cestas básicas. Eles ganham um cartão que permite a entrega das cestas por seis meses. No quinto, eles retornam para uma entrevista de reavalição, que constata se houve mudança em sua situação, de forma a saber se precisam ou não continuar a receber auxílio alimentar.”
Dirceu: approach para que a pessoa se sinta gente
“A grande filosofia” – conforme Dirceu – “não é só dar a comida para o carente. É preciso dar-lhe um pouco de amor, um pouco de approach, para que ele se sinta gente”, sentencia Alves, exemplificando com o atendimento jurídico, que é feito por quatro advogados, entre eles Roberto Cerchiaro e Pedro Chagas Filho, que conversaram com a reportagem.

Diálogo é a melhor arma – “Fornecemos orientação, encaminhando-os aos serviços gratuitos da OAB ou da prefeitura. Os problemas que mais motivam a procura estão relacionados ao pagamento de pensão alimentícia. Depois vêm previdência e questões trabalhistas”, enumera Cerchiaro, marido de Maria Amélia Fava Cerchiaro, que coordena atividades educacionais para a criançada, enquanto os pais recebem as cestas básicas.
Maria Amélia entretem filhos dos assistidos
Para o grande inspirador do Grupo Franciscano, frei Sebastião Benito Quáglio, todas as paróquias têm de se organizar para atender espiritualmente e materialmente as pessoas.
“Em geral quando se fala de paróquia a gente fala de missa, batizado e casamento. Claro que isso é importante. Mas é preciso cuidar dessa gente que não tem o que comer, ajudando-a a encontrar trabalho e a ter uma vida normal. Não é só alimento, roupa que contam, mas também amparo e orientação”, afirma o frei, destacando outro projeto que nasceu na paróquia para reforçar esse trabalho: a Milícia da Imaculada.
A Milícia possui uma revista mensal e conta com uma rede mundial de rádio para divulgar suas propostas de evangelização.
Roberto e Pedro: pensões lideram demanda judicial
“Isso tudo tem como finalidade criar nas pessoas a mentalidade de que pobre sempre existe e que a sociedade precisa mudar por dentro. Nossa preocupação inclui todas as classes sociais, políticas e econômicas, buscando despertar quem pode fazer mais. Não estamos aqui para criticar nem ricos nem políticos, mas para dialogar. O diálogo é a melhor arma. O importante é amar as pessoas, mas procurar despertá-las a não se acomodar”, conclui o frei.

Em busca de pão e dignidade

Nos sábados de cesta básica, eles levantam cedo e tomam conta da paróquia da Santíssima Virgem. Assistem à missa e depois, na calçada dos fundos da igreja, formam fila para tomar café com leite, pão e manteiga.
Atrás da cesta básica há gente como a desempregada Fátima Alves, de 47 anos, que mora em São Bernardo do Campo e segura com prazer a sua primeira alimentação do dia.
Valéria, 6 filhos: sem a cesta básica não saberia o que fazer
Ou então Simone Dantas Carvalho, de 42 anos, e sua filha Sabrina, de 17, que moram na Vila São Pedro. A mãe trabalha como babá, mas a grana não é suficiente para garantir a comida na mesa, enquanto a filha corre atrás de uma vida melhor matriculada num curso no Programa de Educação do Adolescente para o Trabalho (PEA), da Prefeitura de São Bernardo do Campo.
Raimunda Cassiana Rodrigues, 59 anos, recebe 70 reais do Bolsa Família, mora no Jardim Inamar, em Diadema, e vem até a paróquia buscar uma cesta básica para garantir a alimentação da família.
Residente no Areião, em São Bernardo, o cozinheiro Reginaldo Bezerra da Silva, 42 anos, desempregado há seis anos, vive atualmente de pequenos serviços e vem buscar a cesta para ter o que comer até que consiga um trabalho regular.
Valéria de Fátima Chaves, 33 anos, ajudante-geral, está ganhando a vida atualmente numa frente de trabalho da prefeitura de São Bernardo, onde trabalha com capina. Tem seis filhos e, se não fosse a cesta básica, disse que não saberia o que fazer.
Maria Ivone Vieira Silva, 41 anos, dona de casa, tem cinco filhos e reside em Santo André. É muito grata à paróquia porque, além da cesta básica, recebeu enxoval para sua última gravidez e encontra remédios que não consegue em Santo André.
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Reportagem originalmente publicada no jornal Grande Alvarenga, de São Bernardo do Campo, na edição de 17 a 30 de junho 2011.
Para saber mais sobre a paróquia Santíssima Virgem e como colaborar com o seu trabalho acesse http://grupofranciscanosbc.webnode.com.br/

Conheça também o trabalho da Milícia da Imaculada.

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